Baterias de carros elétricos são sustentáveis? Clima, impactos sociais e desafios da mineração - OPINIAO - 16/01/2026
- Ana Cunha-Busch
- 15 de jan.
- 4 min de leitura

Baterias de carros elétricos são sustentáveis? Clima, impactos sociais e desafios da mineração
Os veículos elétricos ajudam a reduzir as emissões do setor de transportes, mas a extração de lítio, cobalto e outros minerais críticos levanta preocupações sociais e ambientais que colocam a transição energética em xeque.
O papel dos veículos elétricos na transição energética
Os veículos elétricos são amplamente considerados uma das principais soluções para reduzir as emissões do setor de transportes, que responde por aproximadamente 15% das emissões globais de gases de efeito estufa relacionadas à energia, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). No centro dessa mudança estão as baterias, uma tecnologia essencial para substituir os motores de combustão interna.
À medida que as vendas de veículos elétricos crescem rapidamente, também cresce o debate sobre o verdadeiro impacto ambiental e social das baterias, desde a extração mineral até o descarte ao final de sua vida útil.
Do que são feitas as baterias de carros elétricos?
A maioria dos veículos elétricos utiliza baterias de íon-lítio, escolhidas por serem leves, eficientes e capazes de armazenar grandes quantidades de energia. Cada bateria é composta por milhares de células recarregáveis, constituídas por:
Ânodo, geralmente feito de grafite;
Cátodo, cuja composição varia conforme a tecnologia;
Eletrólito, que permite o fluxo de íons;
Separador, que evita curtos-circuitos.
Principais tipos de bateria:
NMC (Níquel, Manganês e Cobalto): maior autonomia, porém maior dependência de minerais críticos;
LFP (Fosfato de Ferro-Lítio): menor impacto ambiental durante a produção e sem cobalto, mas menor densidade energética;
Íon-sódio (em desenvolvimento): uma alternativa promissora que utiliza materiais mais abundantes e de menor custo.
Mineração de lítio e cobalto: impactos sociais e ambientais.
Apesar dos benefícios climáticos dos veículos elétricos, a extração dos minerais utilizados nas baterias causa impactos significativos nas comunidades locais e nos ecossistemas.
Cobalto e violações dos direitos humanos
Cerca de 70% do cobalto mundial é extraído na República Democrática do Congo, onde relatórios da Anistia Internacional e da Human Rights Watch documentaram:
Trabalho infantil
Condições de trabalho perigosas
Falta de proteção à saúde e segurança
Essas constatações levantam sérias questões sobre a responsabilidade corporativa nas cadeias de suprimentos globais de veículos elétricos.
Lítio e escassez de água
A mineração de lítio está concentrada no chamado “triângulo do lítio” — Chile, Argentina e Bolívia — regiões já afetadas pela escassez de água. No deserto do Atacama, no Chile, a extração de lítio consome grandes volumes de água subterrânea, impactando:
Comunidades indígenas
Agricultura local
Ecossistemas frágeis
Esses impactos destacam o risco de que a transição energética possa reproduzir desigualdades históricas, particularmente no Sul Global.
Quem domina a produção global de baterias?
A China lidera a cadeia de suprimentos global de veículos elétricos e baterias. Em 2023, o país representou mais da metade das vendas globais de veículos elétricos e cerca de 75% da produção global de baterias de íon-lítio, segundo a AIE (Agência Internacional de Energia).
Empresas como a CATL e a BYD desempenham um papel central nessa dominância. Em resposta, os Estados Unidos, o Canadá e a União Europeia estão expandindo os investimentos na fabricação nacional de baterias para reduzir a dependência estratégica e melhorar os padrões ambientais.
Crescimento das vendas de veículos elétricos
A queda nos preços das baterias impulsionou o rápido crescimento do mercado global de veículos elétricos. De acordo com a BloombergNEF, os custos das baterias caíram cerca de 97% nos últimos 30 anos.
2017: cerca de 1 milhão de veículos elétricos vendidos
2022: mais de 10 milhões
2024 (previsão): 16,7 milhões, mais de 20% das vendas globais de carros
A AIE projeta que, até 2035, metade de todos os carros vendidos no mundo serão elétricos, podendo chegar a dois terços se os compromissos climáticos forem cumpridos.
Os carros elétricos emitem menos poluentes ao longo de sua vida útil?
A fabricação de um veículo elétrico gera emissões iniciais mais elevadas do que a de um carro com motor a combustão, principalmente devido à produção das baterias. No entanto, esse impacto é compensado durante o uso.
Estudos mostram que:
Um veículo elétrico compensa as emissões de fabricação em cerca de dois anos.
De acordo com o Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT), as emissões ao longo da vida útil de um veículo elétrico são até três vezes menores do que as de carros convencionais nos EUA e na Europa.
Mesmo em sistemas de geração de energia elétrica com forte dependência do carvão, os veículos elétricos emitem menos poluentes ao longo do tempo.
A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que um carro elétrico vendido em 2023 emitirá, em média, metade das emissões de um veículo comparável com motor a combustão durante toda a sua vida útil.
Reciclagem de baterias: uma solução ainda em desenvolvimento
As baterias de veículos elétricos duram entre 15 e 20 anos e podem ter uma segunda vida útil no armazenamento de energia renovável. A reciclagem, no entanto, ainda enfrenta grandes desafios:
Falta de padronização
Processos complexos e dispendiosos
Riscos de incêndio e poluição
Novas tecnologias, como a reciclagem direta, estão sendo desenvolvidas. De acordo com a IEA, a reciclagem de minerais de baterias poderia reduzir a necessidade de novas explorações em cerca de 10% até 2040.
Uma transição energética justa é essencial
As baterias de carros elétricos não são isentas de impacto. Ainda assim, evidências científicas mostram que os veículos elétricos são essenciais para a redução das emissões do setor de transportes. O desafio agora é garantir uma transição energética justa — que respeite os direitos humanos, proteja as comunidades afetadas pela mineração e invista em soluções de economia circular.
Sem essas salvaguardas, o risco é substituir um problema climático por novos conflitos sociais e ambientais.
Fontes:
Agência Internacional de Energia (IEA)
BloombergNEF
Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT)
Anistia Internacional
Human Rights Watch
Carbon Brief





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