Como o utilitarismo nos transformou em estranhos da própria Terra - OPINIÃO 29/04/2025
- Ana Cunha-Busch
- 28 de abr. de 2025
- 2 min de leitura

Como o utilitarismo nos transformou em estranhos da própria Terra.
Em abril, vivi uma experiência multicultural que poucos têm acesso: uma roda de conversa com indígenas da aldeia Kariri-Xocó, de Porto Real do Colégio, Alagoas. Fui sem saber o que esperar – afinal, o encontro ocorria longe do território indígena, em uma universidade no sudeste brasileiro, ambiente pouco familiar para o cacique e os guerreiros.
Cheguei no piloto automático, apenas para marcar aquele check na agenda: trabalhar – check; entregar um presente para uma amiga – check; vivência indígena – check. Enquanto buscava o melhor ângulo para uma foto que registrasse a "experiência", o cacique Kayran foi questionado:
— Cacique, como vocês entendem a morte?
Para além da crença em reencarnação, o que me marcou foi sua explicação sobre a penitência:
— Para vocês, a penitência é a igreja. Para nós, é a natureza. Nossa medicina vem dela. Abraçamos uma árvore porque ela é uma árvore – e assim trocamos energia com ela.
A professora Nathalia Nascimento, do Laboratório de Educação e Política Ambiental da ESALQ/USP, complementou:
— Essa fala é fundamental. Vivemos em um mundo onde uma árvore não é mais uma árvore, mas "carbono estocado".
O encontro durou duas horas, mas bastaram duas frases para eu perceber como a cosmovisão ocidental nos desumanizou. Transformamos tudo em recurso, dado ou commodity – e essa é a raiz da crise socioambiental.
Basta cinco minutos no Instagram para aprendermos a reduzir a comida a macronutrientes: o bife vira "proteína", o arroz vira "carboidrato", o azeite vira "gordura boa". Deixamos de comer pelo paladar – pelo afeto da comida da vó, pelo cheiro que invade a cozinha – para nos alimentarmos por utilitarismo.
Enquanto o "civilizado" se desconecta de si mesmo, os povos originários – chamados de "atrasados" por uma lógica colonial – ensinam que estar presente é resistir. Reconectar é revolucionário. Seja abraçando uma árvore não para o story, mas para honrar sua existência. Seja chamando a mandioca pelo nome que sua avó usava – e não por "fonte de amido resistente".
Os Kariri-Xocó nos lembram que a natureza não é cenário, mas parente. Enquanto calculamos quantas árvores compensam um voo, eles perguntariam: "Quantas você conhece pelo nome?" A verdadeira sustentabilidade começa aí – no abraço que o algoritmo não reconhece.
O futuro é ancestral!
By Ana Letícia R. Ferro





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