ESG: DA RETÓRICA PARA OS DADOS - OPINIÃO. 14/01/2026
- Ana Cunha-Busch
- 13 de jan.
- 3 min de leitura

ESG: DA RETÓRICA PARA OS DADOS - OPINIÃO. 14/01/2026
Por Claudia Andrade
Durante muito tempo, o ESG ocupou um lugar confortável: o do discurso. Compromissos públicos, relatórios extensos, boas intenções. Mas a conjuntura política, regulatória e financeira atual está deixando claro que essa fase está se esgotando. O que se desenha para 2026 é um cenário em que o impacto precisa ser comprovado, monitorado e sustentado ao longo do tempo — e não apenas declarado.
Tenho refletido bastante sobre como a tecnologia, a inteligência artificial e, especialmente, a telemetria estão mudando o jogo do ESG. Não como tendência estética ou buzzword, mas como infraestrutura real de credibilidade. Estamos entrando em um momento em que o impacto socioambiental passa a ser tratado como dado estratégico, sujeito a auditoria, comparação e decisão. Isso muda profundamente a forma como projetos, empresas e políticas públicas precisam ser estruturados.
Especialistas como George Serafeim, da Harvard Business School, já alertam que o ESG só cria valor quando está integrado à estratégia do negócio e sustentado por dados materiais. Essa afirmação carrega uma provocação direta: quantos compromissos de impacto hoje conseguem sobreviver ao escrutínio dos dados operacionais reais?
É nesse ponto que a telemetria se torna central. Ao permitir o monitoramento contínuo de sistemas, recursos e serviços essenciais — água, energia, logística, saneamento, infraestrutura social — ela transforma impacto em algo mensurável, rastreável e acionável. Deixa de ser promessa e passa a ser evidência. Em 2026, essa capacidade tende a se tornar não apenas diferencial competitivo, mas pré-requisito para acesso a capital, parcerias e políticas públicas.
Quando conectada à inteligência artificial, essa lógica se aprofunda. Não estamos falando apenas de medir o que já aconteceu, mas de antecipar riscos climáticos, identificar padrões de ineficiência, simular cenários e orientar decisões estratégicas. Bernard Marr, especialista global em estratégia de dados, costuma afirmar que organizações que não conectarem IA, dados e sustentabilidade perderão competitividade. O mercado financeiro já entendeu que o impacto é variável de risco — e também de valor.
Outra tendência que ganha força em 2026 é o avanço da regulação climática e socioambiental baseada em risco, especialmente no sistema financeiro. Bancos, fundos e seguradoras passam a exigir evidências mais robustas de gestão ambiental, social e territorial. Isso desloca o ESG do campo da reputação para o campo da governança e da sobrevivência econômica. Não se trata mais de “fazer o bem”, mas de gerir riscos reais.
Também cresce a pressão contra o greenwashing e o social washing. Relatórios genéricos e indicadores frágeis tendem a perder espaço para métricas conectadas à operação e ao território. Nesse contexto, tecnologias de monitoramento, rastreabilidade e verificação independente se tornam essenciais para sustentar a legitimidade do discurso.
No campo social, essa mudança é ainda mais profunda. A tendência para 2026 aponta para uma cobrança maior sobre impacto social mensurável, especialmente em projetos ligados à água, saneamento, saúde, educação e infraestrutura básica. A telemetria aplicada a esses sistemas permite medir acesso, continuidade, qualidade e eficiência dos serviços. O impacto social deixa de ser apenas narrativo e passa a dialogar com indicadores, dados e governança — algo cada vez mais exigido por financiadores, governos e organismos internacionais.
Outro movimento relevante é a integração entre ESG, território e justiça climática. Não basta reduzir emissões ou melhorar indicadores médios; será cada vez mais necessário demonstrar quem se beneficia e quem fica para trás. Dados territoriais, monitoramento local e leitura contextual passam a ser parte central das estratégias de impacto.
John Elkington, criador do conceito de Triple Bottom Line, costuma lembrar que sustentabilidade não é sobre parecer bom, mas sobre fazer diferente. E fazer diferente, em 2026, exige tecnologia, transparência e coragem. Coragem, inclusive, para lidar com dados que nem sempre confirmam o discurso institucional.
Talvez a grande questão deste novo ciclo do ESG não seja se tecnologia, IA e telemetria fazem parte da agenda. Elas já fazem. A questão real é quem está disposto a usar essas ferramentas para aprofundar impacto — e quem ainda prefere evitá-las para não expor incoerências.
Deixo essa reflexão como convite à leitura e ao debate. Porque, cada vez mais, o impacto que não é medido tende a ser questionado. E impacto que é monitorado, cuidado e aprimorado continuamente deixa de ser discurso e passa a ser compromisso real.
#ODS 06, 9 e 13
@cauvic2





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