A ferrovia planejada pelo Brasil para a Amazônia gera críticas à margem da COP30. 21/11/2025
- Ana Cunha-Busch
- 20 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

Por AFP - Agence France Presse
A ferrovia planejada pelo Brasil para a Amazônia gera críticas à margem da COP30
Fran BLANDY
Manifestantes indígenas nas negociações climáticas da ONU no Brasil concentraram-se em uma grande queixa: uma ferrovia planejada que se estenderia por quase a distância entre Londres e Berlim e cortaria a floresta amazônica.
Para os agricultores, a Ferrogrão seria uma revolução logística.
Críticos veem mais um projeto de infraestrutura gigantesco que ameaça a Amazônia, minando o compromisso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o meio ambiente.
- Qual é a ideia por trás do Ferrogrão? -
O Brasil é o maior exportador mundial de soja e milho, grande parte dos quais é produzida no estado do Mato Grosso.
Atualmente, essa carga percorre longas distâncias por caminhão até os portos marítimos do sul ou os portos fluviais do norte.
Há mais de uma década, os governos brasileiros tentam viabilizar uma ferrovia de 933 quilômetros (580 milhas) que ligaria Sinop, no Mato Grosso, ao porto fluvial de Miritituba, no norte do país.
De lá, os grãos poderiam chegar ao Rio Amazonas e ao Oceano Atlântico.
- O que dizem os defensores do projeto? -
Elisangela Pereira Lopes, assessora técnica da CNA, principal organização de agricultores do Brasil, disse à AFP que a ferrovia é "essencial para garantir a competitividade do agronegócio brasileiro".
Ela afirmou que o Mato Grosso, responsável por cerca de 32% da produção nacional de grãos, "precisa de uma rota logística mais eficiente para acompanhar o crescimento do setor".
Lopes disse que a ferrovia deve reduzir o custo logístico das exportações de grãos em até 40%, além de diminuir o tráfego rodoviário e as emissões de CO2 associadas.
- O que dizem os críticos? —
Mariel Nakane, do Instituto Socioambiental (ISA), disse à AFP que a ferrovia impactará terras indígenas e fomentará o desmatamento e a grilagem de terras.
Ela afirmou que a mudança do agronegócio na última década para a exportação de seus produtos a custos mais baixos por meio de portos fluviais no norte do país já transformou o rio Tapajós, onde se situa o porto de Miritituba.
"Comunidades ribeirinhas estão sendo expulsas... elas não podem mais pescar em algumas regiões porque agora só existem portos e o tráfego de barcaças.
"A ideia é instalar a ferrovia e quintuplicar o volume transportado nessa rota."
Enquanto isso, ela teme uma desordem generalizada em áreas já vulneráveis ao desmatamento.
Nakane afirmou que os atuais procedimentos de licenciamento do Brasil não são suficientes para proteger a floresta tropical e seus habitantes.
Ela citou outros projetos controversos, como a exploração de petróleo perto do Rio Amazonas — que começou em outubro — e os planos para pavimentar a BR-319, uma importante rodovia na floresta tropical.
"O governo não é capaz de fazer isso direito." É muito fácil para o governo alegar que está comprometido com a agenda climática, mas varrer esses projetos controversos para debaixo do tapete.
- Por que isso veio à tona nas negociações climáticas da COP? -
Com os olhos do mundo voltados para Belém durante a cúpula climática da ONU, as comunidades indígenas buscaram chamar a atenção para suas reivindicações, como a Ferrogrão.
Os manifestantes também estão furiosos com um decreto assinado por Lula em agosto, que estabeleceu os principais rios da Amazônia, incluindo o Tapajós, como prioridades para a navegação de cargas e a expansão de portos privados.
"Não permitiremos isso porque é nossa casa, nosso rio, nossa floresta", disse a líder indígena Alessandra Korap, do povo Munduruku.
"O rio é a mãe dos peixes."
- Qual é o status atual do projeto? -
O Ibama, órgão ambiental brasileiro, afirmou à AFP em um comunicado que "o processo de licenciamento da ferrovia Ferrogrão está em sua fase inicial, com uma avaliação de sua viabilidade ambiental".
No entanto, o processo foi suspenso em Em 2021, o juiz do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, decidiu contra o projeto de alteração dos limites de um parque nacional para a construção da ferrovia.
Moraes permitiu que o caso fosse retomado em 2023, e o tribunal voltou a analisá-lo no mês passado.
Moraes — uma figura influente no Brasil que liderou pessoalmente diversas investigações importantes — votou a favor da continuidade do projeto.
No entanto, a audiência está atualmente suspensa após outro juiz solicitar mais tempo para analisar o caso.
fb/bjt





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