Acordo da COP30 Ameaçado por Divergências sobre Combustíveis Fósseis. 21/11/2025
- Ana Cunha-Busch
- 20 de nov. de 2025
- 4 min de leitura

Por AFP - Agence France Presse
Acordo da COP30 Ameaçado por Divergências sobre Combustíveis Fósseis
Por Issam Ahmed, Julien Mivielle e Nick Perry
Negociadores se esforçaram na sexta-feira para salvar as negociações climáticas da ONU no Brasil, enquanto países produtores de petróleo eram acusados de resistir a qualquer menção à eliminação gradual dos combustíveis fósseis no acordo final.
Após quase duas semanas de negociações na cidade amazônica de Belém, uma nova versão preliminar do acordo, divulgada pelo Brasil, anfitrião da COP30, não mencionou "combustíveis fósseis" nem a palavra "roteiro" que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia apoiado publicamente.
O comissário europeu para o clima, Wopke Hoekstra, afirmou que o texto era "inaceitável" e que a cúpula corria o risco de terminar sem um acordo.
"Digo isso com o coração pesado, mas o que está em cima da mesa é claramente um 'nenhum acordo'", declarou Hoekstra a jornalistas enquanto os negociadores se reuniam novamente em busca de um consenso.
Mais de 30 países — incluindo nações ricas, economias emergentes e pequenos estados insulares — alertaram em uma carta ao Brasil que rejeitariam qualquer acordo que não incluísse um plano para abandonar os combustíveis fósseis.
A ministra francesa da Transição Ecológica, Monique Barbut, disse à AFP que a Rússia e a Arábia Saudita, ricas em petróleo, juntamente com a Índia, produtora de carvão, e "muitos" países emergentes, estavam bloqueando um acordo sobre combustíveis fósseis.
O ministro alemão do Meio Ambiente, Carsten Schneider, afirmou que a versão mais recente do acordo "não pode permanecer como está" e alertou que "as negociações serão difíceis", faltando apenas algumas horas para o encerramento oficial da COP30.
A ministra colombiana do Meio Ambiente, Irene Vélez Torres, declarou na sexta-feira que a COP30 "não pode terminar" sem um roteiro para os combustíveis fósseis.
É necessário consenso entre as quase 200 nações para se chegar a um acordo na conferência climática da ONU, que este ano acontece sem a presença dos Estados Unidos, já que o presidente Donald Trump boicotou o evento.
O chefe da COP30, o diplomata brasileiro André Correa do Lago, afirmou que aqueles que duvidam que a cooperação seja o melhor caminho para enfrentar as mudanças climáticas "ficarão absolutamente encantados ao ver que não conseguiremos chegar a um acordo entre nós".
A conferência, que foi interrompida por várias horas devido a um incêndio no local na quinta-feira, deveria terminar na noite de sexta-feira, mas as cúpulas climáticas da ONU frequentemente se estendem além do horário previsto.
A pressão por uma eliminação gradual do petróleo, gás e carvão — os principais responsáveis pelo aquecimento global — surgiu da frustração com a falta de implementação do acordo da COP28 em Dubai, em 2023, para a transição para longe dos combustíveis fósseis.
Persistem divergências não apenas sobre combustíveis fósseis, mas também sobre medidas comerciais e financiamento para que as nações mais pobres se adaptem aos impactos das mudanças climáticas, como inundações e secas, e caminhem rumo a um futuro de baixo carbono.
A versão rejeitada do projeto afirmava ser necessário um "aumento significativo" no apoio financeiro aos países em desenvolvimento. Também pedia "esforços para triplicar o financiamento da adaptação" até 2030, em comparação com os níveis de 2025.
"A UE está presa a uma triplicação do financiamento da adaptação muito antes do que considera aceitável e, em troca, não recebeu nada. Nenhuma transição para longe dos combustíveis fósseis", disse Jake Schmidt, diretor estratégico sênior do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais (Natural Resources Defense Council), um grupo de defesa ambiental.
"É uma pílula amarga de engolir", disse Schmidt à AFP.
Bronwen Tucker, líder de finanças públicas do grupo de defesa ambiental Oil Change International, classificou a versão mais recente do texto como "ultrajante".
"A Presidência apresentou um texto vergonhosamente fraco que não menciona os combustíveis fósseis, não exige prestação de contas em relação às obrigações financeiras dos países ricos e faz apenas promessas vagas sobre adaptação", disse Tucker.
"A Presidência apresentou um texto vergonhosamente fraco que não menciona os combustíveis fósseis, não exige prestação de contas em relação às obrigações financeiras dos países ricos e faz apenas promessas vagas sobre adaptação", disse Tucker. Hoekstra afirmou que a UE está "disposta a ser ambiciosa em relação à adaptação", mas que "qualquer menção ao financiamento deve estar estritamente dentro do compromisso assumido no ano passado" na COP29 em Baku, onde as nações desenvolvidas concordaram em fornecer US$ 300 bilhões em financiamento climático anual até 2035.
A UE também enfrenta resistência liderada pela China e pela Índia à sua "taxa de carbono" sobre importações como aço, alumínio, cimento e fertilizantes — medidas que o Reino Unido e o Canadá também estão se preparando para adotar.
As negociações para um acordo final foram adiadas na quinta-feira, quando um incêndio abriu um buraco no teto de tecido do local da COP30, forçando uma evacuação em pânico.
Dezenove pessoas foram tratadas por inalação de fumaça e duas por crises de ansiedade, disseram as autoridades. O local reabriu ainda na noite de quinta-feira.
bur-it-lth/md





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