Acordo turístico coloca em risco uma das últimas praias selvagens do Egito. 18/08/2025
- Ana Cunha-Busch
- 17 de ago. de 2025
- 3 min de leitura

Por AFP - Agence France Presse
Acordo turístico coloca em risco uma das últimas praias selvagens do Egito
Lobna Monieb
Em Wadi al-Gemal, no Egito, onde banhistas compartilham uma baía cintilante com tartarugas marinhas, um acordo turístico obscuro ameaça uma das últimas praias selvagens do Mar Vermelho.
Ao largo de Ras Hankorab, as tartarugas-verdes, ameaçadas de extinção, serpenteiam entre jardins de corais que os biólogos marinhos consideram entre os mais resistentes às mudanças climáticas do mundo.
À noite, na época de nidificação, elas rastejam até a costa sob o brilho da Via Láctea, sem serem perturbadas por luzes artificiais.
Então, quando as escavadeiras chegaram à areia em março, a equipe da reserva e os conservacionistas soaram o alarme.
Milhares assinaram uma petição para "Salvar Hankorab" após descobrirem um contrato entre uma entidade governamental não identificada e uma empresa de investimentos para a construção de um resort.
O Ministério do Meio Ambiente — que tem jurisdição sobre o parque — protestou, a construção foi interrompida e as máquinas foram discretamente removidas.
Mas, meses depois, os pedidos parlamentares por detalhes não foram respondidos, e fontes internas afirmam que os planos continuam em vigor.
"Apenas certos tipos de desenvolvimento turístico funcionam para uma praia como esta", disse Mahmoud Hanafy, professor de biologia marinha e consultor científico da província do Mar Vermelho.
"Barulho, luzes, intensa atividade humana — tudo isso pode destruir o ecossistema."
Hankorab fica dentro do Parque Nacional Wadi al-Gemal, declarado área protegida em 2003.
- Expansão costeira -
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) descreve a região como lar de "algumas das últimas praias naturais intocadas na costa sul do Mar Vermelho" — uma área agora dividida entre a proteção ambiental e a urgente pressão do Egito por investimentos.
O Egito, mergulhado em sua pior crise econômica em décadas, está apostando alto em seus 3.000 quilômetros de litoral como fonte de receita.
Um acordo de US$ 35 bilhões com os Emirados Árabes Unidos para desenvolver Ras al-Hekma, no Mediterrâneo, deu o tom, e propostas semelhantes para o Mar Vermelho se seguiram.
Em junho, o presidente Abdel Fattah al-Sisi destinou 174.400 quilômetros quadrados (67.300 milhas quadradas) de terras do Mar Vermelho ao Ministério das Finanças para ajudar a reduzir a dívida pública.
O Mar Vermelho — onde o turismo é o principal empregador — é fundamental para o plano do Cairo de atrair 30 milhões de visitantes até 2028, o dobro dos números atuais.
No entanto, o PNUD alertou já em 2019 que o crescimento do turismo egípcio havia sido "em grande parte às custas do meio ambiente".
Desde então, resorts de luxo e condomínios fechados se espalharam por centenas de quilômetros, deslocando comunidades e danificando habitats frágeis.
"O objetivo é lucrar o máximo possível com o desenvolvimento dessas reservas, o que significa destruí-las", disse o advogado ambiental Ahmed al-Seidi.
"Isso também viola as obrigações legais da lei de reservas naturais."
- Limbo legal -
Em Hankorab, Hanafy afirma que o problema central é legal.
"A empresa assinou um contrato com uma entidade governamental diferente daquela que administra a reserva", disse ele.
Se for verdade, diz Seidi, o acordo é "nulo e sem efeito".
Quando a construção foi noticiada em março, a deputada Maha Abdel Nasser buscou respostas do Ministério do Meio Ambiente e do primeiro-ministro, mas não obteve nenhuma.
Em uma reunião subsequente, as autoridades não conseguiram identificar a empresa responsável pelo projeto e nenhum relatório de impacto ambiental foi elaborado.
A construção continua paralisada, "o que é reconfortante, pelo menos por enquanto", disse Abdel Nasser. "Mas não há garantias quanto ao futuro."
Por enquanto, a mudança mais visível é um portão recém-construído com a inscrição "Ras Hankorab" em letras latinas.
A entrada agora custa 300 libras egípcias (US$ 6) — cinco vezes mais do que antes — com ingressos que não mencionam a autoridade emissora.
Um funcionário que começou em março lembra que antes do projeto havia "apenas alguns guarda-sóis e banheiros inutilizáveis".
Hoje, há novos banheiros, toalhas e espreguiçadeiras, com um café e um restaurante prometidos para breve.
A incerteza jurídica e ambiental permanece, deixando o futuro de Hankorab — e a gestão de uma das últimas praias intocadas do Mar Vermelho no Egito — sem solução.
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