Como as mudanças climáticas transformaram a garoa de São Paulo em uma tempestade 24/04/2025
- Ana Cunha-Busch
- 29 de abr. de 2025
- 3 min de leitura

Por AFP - Agence France Presse
Como as mudanças climáticas transformaram a garoa de São Paulo em uma tempestade
Facundo Fernández Barrio
Inundações, apagões, árvores caídas e engarrafamentos são o novo normal em São Paulo, há muito considerada uma das cidades mais bem administradas do Brasil, que agora enfrenta frequentes eventos climáticos extremos associados por especialistas às mudanças climáticas. O caos assola uma das maiores cidades do mundo e o coração econômico do Brasil. Associadas às mudanças climáticas, as tempestades transformaram a vida dos 12 milhões de habitantes de São Paulo, uma cidade que sempre se orgulhou de funcionar melhor do que outras, como o Rio de Janeiro, e cujos serviços e infraestrutura a tornaram um paraíso para grandes empresas.
São Paulo era tão conhecida pela “garoa” — uma chuva fina à noite causada pelo ar úmido da costa próxima que colidia com o clima frio da cidade — que o famoso cantor Caetano Veloso a celebrou em sua música de sucesso de 1978, “Sampa”, intitulada em homenagem ao apelido da cidade.
Hoje em dia, porém, chuvas leves são raras e tempestades mortais são cada vez mais comuns na cidade de 12 milhões de habitantes.
As moradoras Cristiane Andrade e Raquel Nascimento sentiram na pele a mudança repentina nos padrões climáticos de São Paulo, que os cientistas associam às mudanças climáticas.
Em março, elas saíram do trabalho de carro para fazer um lanche quando uma tempestade repentina derrubou uma árvore que caiu sobre o para-brisa do carro.
As duas, que foram resgatadas pelos bombeiros, escaparam da morte por poucos centímetros.
“Foi um momento de pânico terrível, uma rajada de vento surgiu em poucos segundos”, disse Andrade, uma funcionária de hospital de 43 anos, à AFP.
O aumento dos eventos climáticos extremos é comparado ao do Rio de Janeiro, uma cidade vibrante, mas assolada pela violência.
- Filas de mil quilômetros
Nas últimas duas décadas, a cidade enfrentou 10 tempestades classificadas como “muito perigosas” pelo Instituto Nacional de Meteorologia — mais do que o dobro do registrado nos 20 anos anteriores.
Em um dia chuvoso de março, os engarrafamentos em São Paulo somaram 1.174 quilômetros de vias bloqueadas.
A queda de árvores é um perigo particular: segundo autoridades municipais de São Paulo, 2.000 árvores foram derrubadas por tempestades neste ano.
Cientistas atribuem a um conjunto de fatores, como o aquecimento global e a hiperurbanização, o aumento das temperaturas que, combinadas com a alta umidade da região, criam a tempestade perfeita.
A temperatura média diurna no verão subiu quatro graus Celsius em São Paulo nos últimos 40 anos, passando de 68,4 graus Celsius (108,6 graus Fahrenheit) para 24,2 graus Celsius (75,6 graus Fahrenheit), de acordo com autoridades meteorológicas.
“Hoje, é preciso pensar em São Paulo quase como uma cidade tropical”, disse Cesar Soares, meteorologista da rede de TV Climatempo.
- Vivendo com risco
As mudanças estão afetando o motor econômico do Brasil.
Quase metade das empresas pesquisadas pela Câmara de Comércio do Estado de São Paulo disseram que seus lucros foram atingidos por condições climáticas extremas no ano passado.
Inundações e cortes de energia danificaram mercadorias e causaram paralisações, enquanto o calor interrompeu as cadeias de abastecimento.
A pior seca desde que os registros começaram a ser mantidos no Brasil, que especialistas também associam às mudanças climáticas, deu lugar a tempestades em outubro que deixaram quase 1,5 milhão de residências sem energia em São Paulo.
As autoridades estão tentando se adaptar à turbulência.
Os moradores receberam 14 alertas de tempestade desde dezembro da agência estadual de Defesa Civil. O sistema de alerta por mensagem de texto será eventualmente estendido a todos os brasileiros.
Também estão em andamento esforços para erradicar as chamadas “ilhas de calor” — áreas densamente povoadas onde as temperaturas costumam ficar vários graus acima da média.
A cobertura verde da cidade — a área ocupada por árvores, parques, telhados verdes e vegetação nas ruas — aumentou de 15% para 26% nos últimos três anos.
Além disso, o sistema de drenagem da cidade está sendo reformado para combater as enchentes.
Mas os bairros mais pobres de São Paulo ainda enfrentam uma onda crescente de calamidades.
No Jardim Pantanal, um bairro de baixa renda às margens do rio Tietê, os moradores tiveram que usar tambores de água como jangadas para evacuar crianças durante as enchentes de fevereiro.
“O governo propôs a realocação das famílias, mas a maioria de nós não quer sair”, disse Pedro Guedes, líder comunitário de 66 anos.
O tenente Maxwell de Souza, porta-voz da Defesa Civil, reconheceu que “não é viável evacuar todos sempre que um bairro é inundado”.
“É por isso que estamos tentando criar uma cultura de convivência com o risco: como não podemos controlar as mudanças climáticas, precisamos de comunidades resilientes”, afirmou.
ffb/cb/sla





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