COP e comércio? Tarifas e imposto sobre carbono pesam sobre as negociações climáticas. 18/11/2025
- Ana Cunha-Busch
- 17 de nov. de 2025
- 4 min de leitura

Por AFP - Agence France Presse
COP e comércio? Tarifas e imposto sobre carbono pesam sobre as negociações climáticas
Issam AHMED
Em Belém, cidade brasileira que sedia a COP30, é difícil não notar o BYD Dolphin Mini — o hatchback chinês que domina o mercado local de veículos elétricos, mesmo enquanto a empresa corre para alcançar a concorrência na Europa e está ausente na América do Norte.
Medidas restritivas ao comércio pairam sobre a cúpula climática da ONU deste ano, com a China pressionando por maior acesso ao mercado para suas tecnologias verdes e as principais economias em desenvolvimento desafiando a Europa por seu novo imposto de fronteira sobre carbono para importações com alta emissão de carbono, como aço e fertilizantes.
Até mesmo os países em desenvolvimento menores, cujas exportações não são alvo do Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM) da Europa, temem medidas mais abrangentes no futuro.
"O comércio, nesta COP, ao contrário das COPs anteriores, já ganhou destaque", disse Li Shuo, diretor do Centro de Clima da China no Instituto de Políticas da Sociedade Asiática, à AFP. "Já podemos esperar que o comércio seja o aspecto mais importante do resultado."
Tradicionalmente, a ambição climática e o financiamento têm dominado as discussões — até que ponto os principais emissores reduzirão a poluição e quanto dinheiro as nações ricas fornecerão para ajudar os países em desenvolvimento a se adaptarem e acelerarem sua transição para longe dos combustíveis fósseis.
Países como China, Índia e Brasil tentaram repetidamente incluir o comércio na agenda da COP, sem sucesso. Isso está mudando.
Um rascunho de texto divulgado pela Presidência da República do Brasil na terça-feira — visto como um passo inicial para o texto final — listou o comércio como o segundo de seus quatro principais pontos.
- "Livre fluxo de produtos verdes" -
O tom foi definido anteriormente em uma cúpula de líderes em novembro, quando o vice-primeiro-ministro chinês, Ding Xuexiang, instou os países a "removerem as barreiras comerciais e garantirem o livre fluxo de produtos verdes de qualidade".
A União Europeia impõe tarifas elevadas sobre veículos elétricos chineses — chegando a mais de 45%, dependendo da empresa —, enquanto o Canadá e os Estados Unidos vão ainda mais longe, ultrapassando os 100%.
Um negociador do Sudeste Asiático disse à AFP que essas realidades incomodam os países asiáticos, que estão comprando tecnologia verde chinesa barata para acelerar suas transições, e consideram "ilógico" e "incoerente" que as nações ocidentais estejam rejeitando a oportunidade de fazer o mesmo.
"Precisamos alcançar a descarbonização radical da economia global nas próximas duas décadas se quisermos cumprir as metas de temperatura do Acordo de Paris", disse Alden Meyer, do think tank E3G, à AFP.
"Na medida em que as políticas comerciais criam barreiras para atingir esse objetivo, esse é um tema legítimo."
O CBAM (Acordo de Modificação de Carbono da União Europeia) é outro ponto de conflito.
A política visa a criar condições equitativas para as indústrias abrangidas pelas normas de emissões da UE, impedindo que as empresas se relocalizem para países com padrões mais fracos.
Mas as principais economias em desenvolvimento — incluindo a Índia e a África do Sul — estão fortemente expostas. — CBAM e além —
"O Norte Global, que utilizou indústrias intensivas em carbono para se desenvolver, está agora abrindo as portas para o Sul Global", disse Mohamed Adow, do think tank Power Shift Africa, à AFP.
As preocupações também vão além dos setores abrangidos pelo CBAM. Um negociador africano de um país exportador de cacau afirmou que a suspensão das regulamentações da UE sobre desmatamento — que exigem comprovação de que as commodities não provêm de terras recentemente desmatadas — é outra grande preocupação.
A UE insiste que o CBAM não é uma política comercial, mas sim climática.
"A precificação do carbono é algo que precisamos buscar com o maior número possível de países, o mais rápido possível", disse o comissário para o clima do bloco, Wopke Hoekstra, na segunda-feira. "Não vamos nos deixar levar pela sugestão de que o CBAM seja uma medida comercial unilateral."
"Alguns países dizem uma coisa aqui nas negociações e outra quando conversamos bilateralmente com eles", disse o embaixador sueco para o Clima, Mattias Frumerie, à AFP, explicando que, em conversas privadas, algumas nações veem o CBAM como um incentivo à descarbonização.
Bruxelas afirma que o CBAM foi concebido para cumprir as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
A Rússia apresentou uma queixa, mas, com o mecanismo de resolução de disputas da OMC praticamente paralisado desde 2019, os oponentes estão buscando outras instâncias para expressar suas preocupações, especialmente porque o Reino Unido e o Canadá estão avançando com seus próprios mecanismos.
David Waskow, diretor da Iniciativa Internacional para o Clima do Instituto de Recursos Mundiais (WRI), disse que, mesmo que o comércio conste no texto final da COP, ninguém espera que a cúpula resolva essas disputas "magicamente". "Eles querem trazê-las à tona, querem provocar uns aos outros", disse ele à AFP.
"Às vezes, isso pode levar a uma recalibração das políticas."
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