Da motosserra à uniforme: parque nigeriano aposta em ex-caçadores para proteger a floresta. 22/01/2026
- Ana Cunha-Busch
- 21 de jan.
- 3 min de leitura

Da motosserra à uniforme: parque nigeriano aposta em ex-caçadores para proteger a floresta
O Parque Nacional de Okomu, no sudoeste da Nigéria, está adotando uma estratégia um pouco comum para enfrentar o desmatamento e a caça ilegal: transformar antigos infratores em parte da solução. A iniciativa recruta ex-madeireiros clandestinos e ex-caçadores para atuarem como guardas florestais, aproveitando o conhecimento que eles já têm do território e, ao mesmo tempo, oferecendo uma alternativa de renda em uma região marcada pelo desemprego.
Um dos exemplos é James Leleghale Bekewei, de 26 anos, que antes tirava sustento do corte ilegal de árvores dentro da reserva e hoje trabalha patrulhando trilhas, identificando pontos de extração e ajudando a localizar caçadores e carregamentos de madeira. Segundo ele, as equipes já fizeram diversas detenções desde que o modelo passou a ser implementado.
A aposta parte do diagnóstico de que a pressão sobre áreas protegidas na Nigéria não é apenas ambiental — é também social. A falta de oportunidades, combinada com a baixa capacidade do Estado em fiscalizar e aplicar as regras, transformou uma exploração ilegal de recursos naturais numa fonte de renda para muitas famílias. Com isso, um dos últimos grandes remanescentes da floresta tropical da região fica mais vulnerável, junto com espécies ameaçadas que ainda sobreviveram ali, como elefantes-da-floresta, pangolins e búfalos.
A gestão do parque, hoje sob responsabilidade de uma ONG que atua em parceria com o serviço nacional de parques, afirma que uma mudança começou em 2022 com a contratação de guardas oriundos das comunidades do entorno. Os candidatos passam por testes físicos e avaliações de conduta, além de treinamento voltado para direitos humanos e preservação ambiental. Diferentemente do que ocorreu em períodos anteriores, os novos guardas passaram a operar armados, embora de forma significativa ressalte que o papel é de proteção e mediação — não de policiamento convencional.
A organização diz que, antes da reformulação, os tráfegos com madeira extraída ilegalmente deixavam uma reserva diariamente. Agora, após dois anos de operação, o grupo afirma ter registrado cerca de 200 prisões, com tendência de queda — um sinal de que a atividade criminosa pode estar recuando, ainda que não tenha sido eliminada.
Mesmo com avanços, o desafio continua grande. O país perdeu a maior parte de sua cobertura florestal original nas últimas décadas, e a expansão de plantações — como a de óleo de palma, muito presente no estado de Edo — é apontada como uma das principais forças por trás do desmatamento fora das áreas protegidas. Dentro e ao redor de Okomu, a pobreza também pesava: quando houve seleção para guardas, centenas de jovens se candidataram, mas apenas uma pequena parcela conseguiu vaga.
Para reduzir a dependência econômica da exploração ilegal, a gestão do parque vem apoiando programas comunitários de microfinanças e poupança coletiva em vilarejos vizinhos. A ideia é financiar pequenos projetos produtivos — como equipamentos para processamento de mandioca — e criar fontes de renda mais resultados. No horizonte, a organização também menciona a intenção de desenvolver o ecoturismo e buscar receitas ligadas aos créditos de carbono, como forma de sustentar a conservação e ampliar os benefícios às comunidades do entorno.
A lógica central do projeto é direta: se a floresta está cercada por necessidade, a proteção só se mantém no longo prazo quando a população ao redor também ganha condições de prosperar. Okomu tenta, assim, trocar o ciclo de destruição e arriscar por um caminho em que antigos exploradores virem guardiões — e em que preservar passe a valer mais do que o colapso.
The Green Amazon News – International
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