Etiópia inaugura a maior barragem da África. 09/09/2025
- Ana Cunha-Busch
- 8 de set. de 2025
- 3 min de leitura

Por AFP - Agence France Presse
Etiópia inaugura a maior barragem da África
A Etiópia deveria inaugurar o maior projeto hidrelétrico da África na terça-feira, que prometia revolucionar o setor energético do país, mas gerou conflitos diplomáticos com o vizinho Egito.
Para a Etiópia, a Grande Barragem do Renascimento (GERD) é um projeto nacional de escala histórica e um raro símbolo de unificação em um país dilacerado por conflitos internos em curso.
Com 145 metros de altura e quase dois quilômetros de extensão sobre o Nilo Azul, perto da fronteira com o Sudão, a megaestrutura de US$ 4 bilhões foi projetada para armazenar 74 bilhões de metros cúbicos de água e gerar 5.000 megawatts de eletricidade — mais que o dobro da capacidade atual da Etiópia.
Isso a torna a maior barragem em capacidade de energia da África, embora ainda esteja fora das 10 maiores do mundo.
Imagens da mídia estatal mostraram o primeiro-ministro Abiy Ahmed visitando o local na manhã de terça-feira com o presidente queniano William Ruto, o presidente somali Hassan Sheikh Mohamud e o chefe da União Africana Mahmoud Ali Youssouf.
As festividades começaram na noite anterior com uma exibição deslumbrante de lanternas, lasers e drones escrevendo slogans como "ascensão geopolítica" e "um salto para o futuro", assistidas por Abiy, que fez do projeto um pilar de seu governo.
Cerca de 45% dos 130 milhões de habitantes da Etiópia não têm eletricidade, segundo dados do Banco Mundial, e os frequentes apagões em Adis Abeba forçam empresas e residências a depender de geradores.
Analistas argumentam que a GERD, em construção desde 2011, poderia transformar a economia da Etiópia, impulsionando a produção industrial, permitindo uma mudança para veículos elétricos e abastecendo vizinhos famintos por energia por meio de interconectores regionais que se estendem até a Tanzânia.
Mas o vizinho Egito, que depende do Nilo para 97% de sua água, vê um desastre iminente.
Com uma população de 110 milhões e pouca chuva, a dependência do Egito em relação ao rio é absoluta.
O presidente Abdel Fattah al-Sisi chamou repetidamente a barragem de "ameaça existencial" e prometeu que o Egito tomaria todas as medidas previstas no direito internacional para defender sua segurança hídrica.
"Quem pensa que o Egito fará vista grossa aos seus direitos sobre a água está enganado", disse ele a repórteres no mês passado.
O impasse agravou as rivalidades regionais. O Egito estreitou laços com a Eritreia e a Somália — ambas com relações tensas com a Etiópia — e mantém uma coordenação estreita com o Sudão, que também se preocupa com a redução do fluxo.
As tentativas de mediação por parte dos Estados Unidos, Banco Mundial, Rússia, Emirados Árabes Unidos e União Africana fracassaram na última década.
"Para a liderança egípcia, a GERD não se trata apenas de água; trata-se de segurança nacional. Uma grande queda no abastecimento de água ameaça a estabilidade interna do Egito. Os riscos são econômicos, políticos e profundamente sociais", disse Mohamed Mohey el-Deen, ex-integrante da equipe egípcia que avalia o impacto da GERD.
As tensões não têm sido totalmente negativas para o governo da Etiópia.
"A Etiópia está localizada em um bairro hostil e, com a crescente fragilidade política interna, o governo busca usar a barragem e o confronto com os vizinhos como uma estratégia unificadora", disse Alex Vines, do Conselho Europeu de Relações Exteriores.
er/kjm





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