Nuvens e conspirações: preocupações com a tentativa de fazer chover 30/03/2025
- Ana Cunha-Busch
- 29 de mar. de 2025
- 4 min de leitura

Por AFP - Agence France Presse
Nuvens e conspirações: preocupações com a tentativa de fazer chover
Emma GUILLAUME
Os países podem controlar as nuvens? E deveriam?
À medida que as mudanças climáticas provocam enchentes e secas, a produção de chuva está na moda em todo o mundo, apesar das evidências contraditórias de que ela funciona e das preocupações de que ela possa provocar tensões entre fronteiras.
Embora a tentativa de controlar o clima possa parecer ficção científica, os países vêm semeando nuvens há décadas para tentar fazer chover ou nevar em regiões específicas.
Inventada na década de 1940, a semeadura envolve uma variedade de técnicas, incluindo a adição de partículas às nuvens por meio de aeronaves.
Atualmente, ela é usada em todo o mundo na tentativa de aliviar a seca, combater incêndios florestais e até mesmo dispersar a neblina nos aeroportos.
Em 2008, a China usou essa técnica para tentar impedir que a chuva caísse sobre o estádio olímpico de Pequim.
No entanto, os especialistas afirmam que a supervisão dessa prática é insuficiente, pois os países demonstram um interesse cada vez maior nessa e em outras técnicas de geoengenharia à medida que o planeta se aquece.
A Sociedade Americana de Meteorologia afirmou que as “consequências não intencionais” da semeadura de nuvens não foram claramente demonstradas - ou descartadas - e levantou a preocupação de que os efeitos imprevistos da modificação do clima possam ultrapassar as fronteiras políticas.
Mas os especialistas dizem que o principal risco pode ser mais uma questão de percepção.
“Se um país souber que seu vizinho está modificando o clima, ele ficará tentado a culpar o vizinho para explicar uma seca”, de acordo com uma nota de pesquisa publicada este mês por Marine de Guglielmo Weber, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Estratégica da Escola Militar de Paris (IRSEM), na França.
A China, por exemplo, é um dos modificadores climáticos mais prolíficos do mundo, lançando a iniciativa Sky River em 2018 para aliviar a escassez de água e aumentar a segurança alimentar do país.
O país conduziu operações no platô tibetano, mas de Guglielmo Weber alertou que isso poderia afetar a disponibilidade de água em países a jusante, como sua rival Índia.
- 'Roubo de nuvem'
O escritor francês Mathieu Simonet, que fez campanha para que as nuvens tenham proteção da ONU, disse que a semeadura poderia alimentar notícias falsas e desinformação “no mundo explosivo de hoje”.
“Acho que o risco real de roubo de nuvem é psicológico”, disse ele.
Em 2018, por exemplo, um general iraniano acusou Israel de “roubar nuvens” para evitar que a chuva caísse no Irã, que estava sofrendo uma grave seca.
Em um contexto de “confusão informacional extremamente intensa”, de Guglielmo Weber alertou: “Às vezes é a conspiração que vence”, acrescentando que isso pode ser alimentado pela desconfiança em relação às instituições científicas.
Em 2024, por exemplo, após grandes inundações no sul do Brasil e nos Emirados Árabes Unidos, milhares de contas de mídia social de céticos do clima espalharam falsas acusações de que as chuvas torrenciais foram provocadas pela semeadura de nuvens.
De Guglielmo Weber disse que isso aumenta o desafio de provar ou refutar o papel da modificação do clima.
E já houve casos em que a semeadura de nuvens foi usada deliberadamente em guerras.
Os Estados Unidos a utilizaram durante a “Operação Popeye” para retardar o avanço do inimigo durante a Guerra do Vietnã.
Em resposta, a ONU criou uma convenção em 1976 que proíbe “o uso militar ou qualquer outro uso hostil de técnicas de modificação ambiental”.
Vários países não assinaram a convenção, disse de Guglielmo Weber. Ela acrescentou que o acordo “é muito limitado” e não se aplica se um país causar um risco climático por acidente.
- 'Bala de prata'
A pesquisadora Laura Kuhl disse que há “um perigo significativo de que a semeadura de nuvens possa causar mais danos do que benefícios”, em um artigo de 2022 para o Bulletin of the Atomic Scientists.
“A semeadura de nuvens talvez seja a bala de prata definitiva, na qual a prata literal na forma de iodeto de prata é infundida nas nuvens, causando a formação de cristais de gelo e a condensação da água em chuva ou neve”, escreveu Kuhl, professora associada da Northeastern University, nos Estados Unidos, especialista em adaptação climática.
Ela disse que soluções tecnológicas como a manipulação do clima podem desviar a atenção de discussões mais complexas e reforçar aspectos como o acesso desigual à água.
Enquanto isso, as pesquisas sobre os efeitos da semeadura de nuvens em regiões vizinhas são variadas - e algumas evidências sugerem que ela não funciona muito bem nem mesmo na área-alvo.
Uma avaliação publicada em 2019 por uma equipe de especialistas em modificação climática da Organização Meteorológica Mundial constatou que a semeadura aumenta a precipitação entre “essencialmente zero” e cerca de 20%.
Ela reconheceu que mais países estavam recorrendo à semeadura de nuvens, mas acrescentou: “Às vezes, atividades desesperadas são baseadas em promessas vazias em vez de ciência sólida”.
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