'Restaurando a dignidade': Troca em favela do Quênia oferece água em troca de plástico. 26/08/2025
- Ana Cunha-Busch
- 25 de ago. de 2025
- 3 min de leitura

Por AFP - Agence France Presse
'Restaurando a dignidade': Troca em favela do Quênia oferece água em troca de plástico
Usando uma muleta para suportar seu peso, Molly Aluoch, de 85 anos, sai de seu quarto com paredes de barro nos arredores de uma favela extensa em Nairóbi, carregando um saco de plástico usado para trocar por um chuveiro ou um banheiro seguro.
Durante os 31 anos em que morou em Kibera, o maior assentamento informal do Quênia, a água e o saneamento permaneceram escassos e caros — muitas vezes controlados por cartéis que cobram dos moradores preços acima de suas possibilidades.
O Projeto Necessidades Humanas (HNP) busca mitigar isso. Os moradores podem trocar plástico descartado por "pontos verdes", ou créditos, que podem ser trocados por serviços como água potável, banheiros, chuveiros, lavanderias e até refeições.
"Com meus pontos verdes, agora posso ter acesso a um banheiro confortável e limpo a qualquer hora do dia", disse Aluoch.
Antes, ela gastava 10 xelins (oito centavos de dólar americano) para usar um banheiro e outros 10 para um banheiro, uma parcela significativa da renda média diária dos moradores, de 200 a 400 xelins, antes dos custos com alimentação e moradia.
"Isso significava que, sem dinheiro, eu não usaria um banheiro", disse ela.
A impossibilidade de usar as latrinas de Kibera devido à sua fragilidade significava que ela teria que recorrer a "meios anti-higiênicos".
Agora, esse dinheiro vai para a alimentação de seus três netos.
Aluoch, uma parteira tradicional, está entre as cerca de 100 mulheres que coletam plásticos para ganhar pontos verdes, ajudando-as a ter acesso à água, ao saneamento e aos serviços de higiene.
Ela leva seu plástico para um centro a 200 metros de sua casa, onde um quilo de plástico reciclável rende 15 pontos verdes, o equivalente a 15 xelins.
O projeto atende cerca de 800 moradores diariamente, permitindo que tenham acesso a banheiros modernos, água potável e instalações de higiene menstrual — serviços que estão fora do alcance de muitas famílias de Kibera.
Desde 2015, o projeto distribuiu mais de 50 milhões de litros (13 milhões de galões) de água e mais de um milhão de usos de banheiros e chuveiros.
Só em 2024, distribuiu 11 milhões de litros de água e possibilitou 124.000 usos de banheiros e sanitários.
- 'Dias sem água' -
Como a água é um bem escasso em Kibera, é comum que vendedores criem escassez artificial para inflacionar os preços, forçando os moradores a pagar mais de 10 vezes o preço normal.
O serviço de água da cidade cobra entre US$ 0,60 e US$ 0,70 por metro cúbico para residências conectadas, mas, em comparação, os moradores de Kibera precisam desembolsar entre US$ 8 e US$ 19 pelo mesmo valor.
"Conseguir água era difícil. Podíamos passar vários dias sem água", disse Magret John, 50 anos, mãe de três filhos.
Hoje, sua realidade é diferente.
"O ponto de água está na minha porta. O fornecimento é constante e a água é limpa. Tudo o que preciso é coletar plásticos, acumular pontos, resgatar e obter água", disse ela.
John, que mora em Kibera há nove anos, diz que o projeto mudou o jogo, especialmente para mulheres e meninas.
"O acesso a serviços de saneamento adequados garante às mulheres e meninas sua dignidade durante a menstruação."
Agora, com 10 pontos de água espalhados por Kibera — extraídos de um poço com capacidade diária de meio milhão de litros — a NHP protege alguns moradores dos preços abusivos de vendedores informais.
A dupla missão do projeto é atender às necessidades humanas básicas e, ao mesmo tempo, combater o crescente problema de resíduos em Kibera.
O diretor de parcerias estratégicas da HNP, Peter Muthaura, afirmou que o projeto ajuda a melhorar a saúde e as condições de vida em Kibera.
"Quando as pessoas não têm acesso a banheiros e instalações sanitárias dignas, o meio ambiente sofre o impacto", disse ele.
Também promove o desenvolvimento, afirmou.
Só no primeiro trimestre de 2025, os moradores de Kibera entregaram duas toneladas de plástico reciclável, com cerca de 250 mulheres diretamente envolvidas na coleta e entrega diárias.
Para Aluoch, cada saco de plástico e cada ponto verde conquistado vai além de água limpa e saneamento: restaura um senso de dignidade.
"Minha oração é que este projeto se espalhe por todos os cantos de Kibera e alcance milhares de mulheres cuja dignidade foi roubada pela falta de serviços de saneamento", disse ela.
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