"Zombaria da ciência": Especialistas americanos criticam relatório climático de Trump. 04/09/2025
- Ana Cunha-Busch
- 3 de set. de 2025
- 3 min de leitura

Por AFP - Agence France Presse
"Zombaria da ciência": Especialistas americanos criticam relatório climático de Trump
Issam AHMED
Especialistas americanos denunciaram na terça-feira um relatório climático do governo Trump por reviver as táticas da indústria do tabaco para semear dúvidas sobre o consenso científico.
Em uma refutação de 440 páginas, 85 cientistas acusaram o governo de confiar em um punhado de opositores que se basearam em estudos desacreditados, deturparam evidências e ignoraram a revisão por pares para chegar a conclusões predeterminadas.
O relatório de 150 páginas do governo, divulgado no site do Departamento de Energia no final de julho, tinha como objetivo apoiar sua proposta de revogar a "Descoberta de Perigo" de 2009 — a base legal para inúmeras regulamentações federais sobre gases de efeito estufa.
"Este relatório ridiculariza a ciência", disse Andrew Dessler, cientista climático da Universidade Texas A&M e coautor da refutação.
"Ele se baseia em ideias que foram rejeitadas há muito tempo, apoiadas por deturpações do conjunto do conhecimento científico, omissões de fatos importantes, demonstrações de imparcialidade, anedotas e viés de confirmação."
Intitulado "Uma Análise Crítica dos Impactos das Emissões de Gases de Efeito Estufa no Clima dos EUA", o documento do DOE fez uma série de afirmações surpreendentes e, às vezes, contraditórias.
Entre elas, a de que eventos climáticos extremos ligados às emissões não estão aumentando, as temperaturas nos EUA não estão subindo, o aumento do dióxido de carbono atmosférico impulsionaria a agricultura e a atividade solar poderia explicar as tendências de aquecimento.
- "Argumentos Zumbis" -
A refutação reúne especialistas de diversas disciplinas para contestar cada afirmação.
"Assim como a indústria do tabaco financiou cientistas para questionar os malefícios do fumo, a indústria dos combustíveis fósseis se engajou em uma campanha coordenada ao longo da década de 1990 para financiar cientistas dispostos a argumentar que era o Sol, e não os humanos, o causador das mudanças climáticas observadas até então", disse Ted Amur, cientista climático da Aon Impact Forecasting, acrescentando estar alarmado ao ver "argumentos zumbis" serem trazidos de volta.
O relatório do DOE alegou que os anos da "Dust Bowl" de 1930 a 1936 — um dos verões mais quentes do país — refutaram a realidade do aquecimento causado pelo homem. Mas o contrarelatório afirmou que isso era profundamente enganoso, visto que a má gestão da terra na época havia transformado as Grandes Planícies em um deserto que amplificou o calor.
Sobre a agricultura, a refutação observa que, embora o dióxido de carbono elevado possa, às vezes, estimular a produtividade isoladamente, espera-se que o aumento do calor e a mudança nos padrões de precipitação causem declínios generalizados.
O relatório do DOE também minimiza a ameaça da acidificação dos oceanos, afirmando que "a vida nos oceanos evoluiu quando eles eram levemente ácidos" bilhões de anos atrás. Mas a refutação argumenta que isso é "irrelevante", visto que a vida complexa não estava presente durante a história inicial da Terra.
A ecóloga Pamela McElwee, da Universidade Rutgers, criticou o relatório por ignorar amplamente os impactos sobre a biodiversidade, apesar das enormes consequências sociais e econômicas.
"Só os recifes de corais dos EUA fornecem cerca de US$ 1,8 bilhão em proteção costeira contra tempestades e inundações anualmente", disse ela.
Desde que retornou ao cargo em janeiro, o presidente Donald Trump foi muito além da agenda pró-combustíveis fósseis de seu primeiro mandato. Os republicanos aprovaram recentemente o "Big Beautiful Bill", eliminando os créditos fiscais para energia limpa e abrindo áreas sensíveis para perfuração.
Ele também retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris e está promovendo sua agenda de combustíveis fósseis no exterior — exigindo que a UE compre mais gás natural liquefeito dos EUA em um acordo comercial e pressionando o Banco Mundial a reduzir seu foco climático, entre outras ações.
ia/sla





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