Índia celebra marco na energia limpa, mas o carvão continua reinando. 20/08/2025
- Ana Cunha-Busch
- 19 de ago. de 2025
- 4 min de leitura

Por AFP - Agence France Presse
Índia celebra marco na energia limpa, mas o carvão continua reinando
Parvaiz BUKHARI
Os combustíveis não fósseis agora respondem por metade da capacidade energética instalada da Índia — anos antes do previsto —, mas o terceiro maior poluidor de gases de efeito estufa continua profundamente dependente do carvão para a geração de eletricidade.
"Um marco na jornada de transição energética da Índia", proclamou o Ministro de Energias Renováveis, Pralhad Joshi, após a nação mais populosa do mundo divulgar os números em julho.
"Cinco anos adiantado", acrescentou, referindo-se à meta da Índia para 2030, segundo o Acordo de Paris, e marcando um passo em direção à meta declarada do país de atingir emissões líquidas zero até 2070.
Mas, embora o marco de 50% seja significativo, a especialista em clima Avantika Goswami afirma que os números — que se referem apenas à produção potencial de energia — contam apenas parte da história.
"No geral, a geração real a partir de fontes renováveis ainda é bastante baixa", disse Goswami à AFP, do Centro de Ciência e Meio Ambiente (CSE), sediado em Nova Déli.
O motivo é claro: quase três quartos da eletricidade continuam a vir de usinas termelétricas a carvão, altamente poluentes.
- Paradoxo do carvão -
O desafio se torna ainda mais evidente ao examinar a contínua dependência da Índia do carvão.
Longe de reduzir seu uso, o segundo maior consumidor mundial de carvão aumentou a produção do combustível fóssil poluente em 5% no ano passado, extraindo um bilhão de toneladas, de acordo com o Ministério do Carvão.
"O carvão continua crucial", afirmou o ministério.
A postura destaca os desafios práticos da transição energética da Índia.
O carvão é necessário para atender à demanda de energia, enquanto a capacidade de armazenamento está atrasada em relação ao aumento das fontes renováveis de energia.
"O setor de carvão continua sendo um contribuinte crucial para a matriz energética da Índia, abastecendo mais de 74% da eletricidade do país e sustentando indústrias-chave como aço e cimento", afirmou o Ministério do Carvão, celebrando o que chamou de "boom do carvão na Índia".
Essa dependência coloca a Índia em uma posição desafiadora globalmente. O país está atrás apenas da China e dos Estados Unidos em emissões de carbono em geral.
Mas analistas apontam que, em um país de 1,4 bilhão de habitantes, as emissões per capita representam apenas um terço da média global, de acordo com dados oficiais.
"Observando as emissões per capita da Índia e o esforço que está fazendo, a Índia está se saindo muito bem", disse o ativista Harjeet Singh, chefe da Fundação Climática Satat Sampada.
A Índia se propôs o desafio assustador de reduzir as emissões em 45% até 2030.
Ao mesmo tempo, espera-se que a demanda por eletricidade mais que dobre até 2047, de acordo com o Centro de Ciência e Meio Ambiente do país.
Parte dessa demanda "provavelmente será suprida pela adição de energias renováveis", disse Goswami.
- 'Desperdice essa energia' -
Metade da capacidade instalada de 484,8 GW da Índia provém de fontes não fósseis.
A maior parte vem da energia solar, totalizando 119 GW — o terceiro maior nível global.
A Índia está construindo um dos maiores parques de energia solar e eólica do mundo, espalhado por um deserto do tamanho de Cingapura.
Seguem-se as energias hidrelétrica e eólica, e também a nuclear — que representa menos de 2% do total.
Mas a energia solar e eólica só geram energia estável quando as condições são adequadas, e a capacidade de armazenamento da Índia é de meros 505 MWh — muito abaixo do que ela pode gerar.
O gargalo no armazenamento não passou despercebido pelo ministro das energias renováveis.
Em discurso na inauguração de uma usina de sistemas de armazenamento de baterias em junho, Joshi disse que o potencial de energia renovável da Índia estava "crescendo rapidamente" e "adicionando de 25 a 30 GW a cada ano".
Ele acrescentou: "Mas, sem armazenamento, ou desperdiçaremos essa energia ou recorreremos ao carvão quando as energias renováveis caírem."
Construir armazenamento com base em baterias requer metais de terras raras, com a rival e vizinha China controlando 70% do fornecimento mundial.
"Continuamos dependentes da China", disse Harjeet Singh, o ativista climático.
O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, esteve em Nova Déli para conversas na terça-feira, com o fornecimento de metais de terras raras em pauta.
Uma solução que a Índia está considerando são os projetos de armazenamento de energia por bombeamento hidrelétrico. Quando as usinas eólicas e solares produzem excesso de energia, a água é bombeada para reservatórios altos. Essa energia armazenada pode então ser liberada para gerar energia quando a demanda aumentar.
Mas Goswami acredita que a transição para uma energia mais limpa requer uma abordagem multifacetada.
A transição para uma energia mais limpa deve vir da "redução da intensidade de emissões" de usinas a carvão, muitas vezes ineficientes, combinada com uma melhor integração de energia renovável na rede, o que "fará a mudança acontecer".
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